Unidade de elite da Polícia Civil é referência nacional em antissequestro

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CURITIBA - PR - Como tomar a decisão que pode salvar uma vida sob a exaustão três dias sem dormir durante uma missão? É exatamente para suportar o cansaço, a pressão e o esforço extremos que o Tático Integrado de Grupos de Repressão Especial da Polícia Civil (Tigre) se prepara com um dos mais difíceis treinamentos entre os grupos de elite das polícias brasileiras. Assim, conseguiu derrubar os índices de sequestro no estado, mesmo quando essa espécie de crime era muito praticada no início dos anos 2000, e segue como uma referência como o grupo antissequestro mais preparado do país nesses 26 anos de atuação – completados no dia 30 de outubro. Somente neste ano, já foram 42 operações realizadas e 24 criminosos presos.

“Aqui não damos 100%, precisamos dar 1.000%”, conta Cristiano Quintas, delegado operacional do grupo, que tem como característica o sigilo tanto da identidade dos integrantes como das táticas de resolução de uma das modalidades mais complexas de crime. O sequestro exige um bom planejamento, investimentos para manter o cativeiro e bancar as pessoas envolvidas no delito. O sequestrador ocupa os mais altos postos da cadeia criminosa e é bastante preparado.

APRIMORAR

Para superar toda essa astúcia, o Tigre se prepara muito. O curso inicial, extremamente rígido, dura um mês, inclui dias sem dormir para testar a resistência física, mental e emocional dos policiais. Além disso, há treinos todas as semanas. “Treinamentos servem para nos aprimorarmos sempre, porque a criminalidade evolui a passos largos. Quando surge uma ocorrência, vai até o fim, um trabalho sem escala, pois é uma missão”, acrescentou Quintas.


A importância do preparo físico vai também da necessidade de suportar a carga levada pelos policiais, que pode atingir 30 quilos – incluindo capacete, coletes, armamentos e aguentar o desgaste das operações que não têm nenhuma previsão de quando irão acabar. Pular muro, andar quilômetros, esperar por horas, correr e manter o fôlego necessário para se comunicar através dos rádios, e até, eventualmente, ter de carregar algum companheiro ferido, são condições para as quais os 30 policiais do grupo estão aptos.
O Tigre, inclusive, é um dos poucos grupos a contar com um médico próprio, também investigador e integrante de todas as operações. Além de todo o aparato policial, ele é responsável pelos equipamentos médicos, de primeiros socorros e até um desfibrilador.

PRESSÃO PSICOLÓGICA

Toda essa carga física capacita os policiais também para encarar a pressão psicológica envolvida neste tipo de crime. “Nós nos comprometemos com a família, é uma imensa responsabilidade. Precisamos manter a humanidade do trabalho, sem perder o profissionalismo”, contou o delegado-titular Luis Fernando Viana Artigas.

A tática de negociação do Tigre é “não pague”. “Por isso é necessário passar confiança para a família de que podemos resolver o caso. O pagamento, além de capitalizar o bandido, não representa segurança nenhuma de que a vítima vai ser libertada e ainda pode motivar o ‘repique’ – um novo sequestro – que é mais comum do que se imagina, já que o criminoso sabe que a família tem dinheiro”, explicou Artigas.

FEZ DIFERENÇA

Essa estratégia é um dos segredos da alta taxa de resolução dos sequestros e também da queda nos índices nestes crimes. “No Paraná, diminuiu quando ainda havia bastante sequestro no Brasil. Aqui foi muito forte. São Paulo era o primeiro estado e o Paraná o segundo. O êxito das atuações do Tigre deu uma diminuída boa. Hoje essa modalidade criminosa parou no Brasil inteiro e os sequestradores de antigamente migraram para [a explosão de] caixa eletrônicos. Há sempre o crime da moda, porque os bandidos não vão procurar emprego, então buscam outra modalidade criminosa. No boom dos sequestros, o Tigre conseguiu solucionar todos e isso criou uma fama na criminalidade, dentro dos presídios e fez diferença naquela época”, explicou o delegado Riad Farhat, hoje na Denarc.

Ele atuou por sete anos à frente na especializada e computou cerca de 35 ocorrências solucionadas, todas com a vítima libertada e nenhum resgate pago no início dos anos 2000. Nos últimos dez anos, todos os dez casos também foram resolvidos.

Dentro da unidade não se trabalha com falso sequestro. As operações começam com o pior dos cenários, que depois podem se configurar como uma extorsão ou uma farsa dos criminosos. “Não castramos nenhuma linha de investigação”, afirmou Artigas.

VOLUNTARIDADE E TREINAMENTO

O principal requisito para ingressar no Tigre é a voluntariedade. Ninguém é convocado ou obrigado a participar do grupo. As atualizações técnicas e táticas são constantes e fazem dos integrantes uma referência, com as principais notas em treinamentos nacionais e internacionais como o curso de Sniper em Brasília, na Swat, nos Estados Unidos, e no curso realizado pela Unidade de Operações Especiais da Polícia Nacional Francesa (RAID). Este ano, ajudaram a compor a Força nacional, responsável pela segurança na Olimpíada do Rio.

Com toda essa expertise, o grupo tem o compromisso de dar treinamentos e apoio a outras unidades policiais, no cumprimento de mandados e operações de alto risco.

A alegria de pegar a vítima e levar para a família

A emoção e o alívio das vítimas e das famílias ao fim de um sequestro são a maior recompensa para os integrantes do Tigre. A gratidão chega aos policiais em forma de visitas, mensagens e até desenhos feitos por crianças que foram sequestradas ou que tiveram os familiares nas mãos dos bandidos.

“Uma vez resgatamos um senhor de mais de 80 anos, que tinha vários problemas de saúde e estava muito debilitado. A alegria de pegar a vítima de sequestro no colo e levar para a família é até difícil de explicar”, relembra um dos delegados, emocionado.

O Tigre foi criado em 1990, após uma turma de delegados do Paraná realizar um curso no Rio de Janeiro, em 1987, ministrado por um dos maiores grupos anti-terror e antissequestro da época, Grupo Especial de Operaciones (GEO), da elite policial espanhola.

Um dos primeiros desafios o grupo foi participar da resolução do histórico sequestro de Marechal Cândido Rondon, em 1995. Uma ação que demorou cerca de três minutos com integrantes Tigre, Águia, Goe e Cope, pôs fim ao sequestro que durava 122 horas. Os setes reféns foram libertados e os três criminosos mortos.
 
O mais longo sequestro cometido no estado durou 50 dias e ocorreu em 2005, com a vítima sendo resgatada em São Paulo. O mentor do crime foi investigado pelo grupo durante por mais de um ano, até ser preso em janeiro de 2007.

Fotos: Divulgação SESP

 

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