2016: Uma eleição que mudou totalmente o cenário político de Cascavel

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CASCAVEL - PR - O ano de 2016 será lembrado como aquele no qual as campanhas eleitorais deixaram de ser como sempre foram. Na lembrança dos mais atentos, a história será contada como o ano em que aqueles que continuaram a fazer política como “antigamente”, perderam o espaço no cenário local e regional. A política tradicional, do aperto de mão, do tapinha nas costas, e das promessas que não serão cumpridas, que até bem pouco convencia os eleitores menos informados, já não cabe mais. A globalização, o acesso à informação, a disponibilidade da tecnologia (qualquer pessoa pode ter um celular e um plano de dados), fez com que num piscar de olhos todos possam saber de tudo, sem enganações, sem mentiras. A internet possui um vasto acervo de informações, que permite uma apurada pesquisa em busca da fonte e veracidade de qualquer dado que seja “jogado ao ar” nas redes sociais.

Eleições com regras novas

A mudança das regras para as eleições, com a edição de uma nova Resolução Eleitoral em 2015, também teve importante influência na forma de fazer campanha. Este ano a duração da propaganda eleitoral caiu pela metade, e com isso houve proporcional redução no tempo do programa eleitoral gratuito na TV e nas rádios, diminuindo a exposição dos concorrentes, em especial dos candidatos na proporcional (vereadores). A proibição das doações por pessoas jurídicas veio a limitar a arrecadação e, por consequência, os candidatos tiveram que optar por ações mais modestas, partindo em busca de simpatizantes e voluntários que se dispusessem a partir para o “corpo a corpo” em busca de votos. Outro ponto que teve fundamental peso nessa mudança de hábitos, foi o vertical crescimento da influência das redes sociais desde as eleições de 2012. Quem não se familiarizou com o uso do Facebook, do Whatsapp, do Instagran, do Twitter, dentre outras, teve dificuldade de entender a importância dessa poderosa arma para atingir, quase que instantaneamente, um público de milhares de pessoas.

Os velhos caciques e a nova "geografia" da política local

Em Cascavel, se pôde observar uma alteração histórica na composição e importância dos grupos políticos que pode ser considerada de grande relevância. Até as eleições de 2012, na Cidade da Cobra, a política era dominada por um restrito número de feudos bem conhecidos, que poderiam ser, facilmente, divididos em 7 grupos: o de Edgar Bueno (PDT), o de Jacy Scanagatta (DEM), o dos Parcianello (PMDB), o de Renato Silva (PV), o de Alfredo Kaefer (PSDB), o de Elemar Adams (PT) e o de Salazar Barreiros (PP).

Esse panorama mudou, no entanto, em 2012, quando Edgar Bueno simplesmente “engoliu” diversos partidos, dominando e cabresteando os vereadores eleitos, que se tornaram seus fiéis serviçais, sem opinião própria ou respeito pela vontade do eleitor. Bueno passou a dominar totalmente o PR, PSL, PSDB, PSC, PSD, PTN, Solidariedade, e PV. Tomaram o PSDB de Kaefer, derrubando-o dentro do próprio partido, para compor com o prefeito pedetista. Já o PSD, na mão de Jorge Lange e o PSC, com Leonaldo Paranhos, sempre estiveram muito próximos e íntimos de Edgar Bueno, praticamente se mesclando com seu grupo. Tomar os pequenos foi bem mais fácil. O preço desses acertos e composições foi cobrado na eleição que há pouco vivemos, no início deste mês de outubro de 2016.

Em um acordo com Rubens Bueno (que estava de olho na herança política de Edgar) o prefeito tomou o PPS de Rui Capelão, vereador com mandato, e o entregou a Paulo Carlesso. O mesmo havia feito com o PSDB, entregue nas mãos de um “parente por tabela” do governador, com nenhuma habilidade política, Mauricio Theodoro, o "Magal". Aliados ao PTN, ao PR e ao PSB, três partidos sem nenhuma expressão em Cascavel, lançaram a candidatura do “professor” Marcos Vinicius, para como uma “cortina de fumaça”, não deixar escancarado que o candidato de Edgar, era, na verdade, seu aliado de muitos anos e ex-vice-prefeito, Leonaldo Paranhos. A candidatura do “professor” foi um dos grandes fiascos da eleição. Hélio Laurindo, do PP de Salazar Barreiros, com o filho do conhecido político como vice, foi outro dos fiascos de 2016, que com 6.506 votos perdeu percentualmente para a Dona Idalina que, nas eleições passadas ficou com 4,04% dos votos válidos contra apenas 3,87% do homem forte dos combustíveis.

A surpresa dentre os péssimos resultados ficou por conta do PMDB de Walter Parcianello, que alcançou tão somente 8.200 votos, aparentemente ferido de morte pelos escândalos que envolvem o ex-deputado e ex-presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, recentemente cassado e, talvez, pela coligação com o PT de Lemos na última eleição.

O PT, que disputou a prefeitura com Aderbal de Mello, sofreu duramente os efeitos dos escândalos que envolvem o partido nacionalmente, que foram exaustivamente divulgados pela grande mídia, e de 71.035 votos feitos por José Lemos em 2012, o candidato petista despencou para tão somente 3.376 votos (2,01% dos votos válidos). A pequena esquerda representada pelo PSOL e PCB, não ficou muito distante daquilo que historicamente tem pontuado em Cascavel e estacionou nos 1.505 votos.

Sobraram os dois grandes

De resto, a política e as forças que a comandam em Cascavel, foram claramente reordenadas, com uma configuração totalmente nova, e com nomes que, muito provavelmente, passarão a ocupar um lugar na história a partir de então, em substituição às velhas e conhecidas raposas.

Leonaldo Paranhos, o grande vencedor das eleições, mesmo se apresentando como um “homem de Deus”, precisou, na verdade, “vender a alma ao diabo” para garantir a cadeira do terceiro andar do Paço. O candidato cristão do PSC se coligou com o PSD de Jorge Lange, Eduardo Sciarra e Ratinho Junior. A “composição” com Ratinho Junior sempre apresenta uma conta salgada. Nesse caso, retiraram a candidatura natural de Lange, absolutamente viável em virtude da saída de Ratinho do PSC de Paranhos, ingressando no PSD, e Ratinho, com a força do governo do Estado e de Ratão na Rede Massa, alavancou a campanha duvidosa. Os mais atentos perceberam que na última troca de partidos, o fiel escudeiro de Edgar, considerado reeleito, Robertinho Magalhães, foi para o PSD. Na coligação, ainda foram convenientemente acomodados no acordo com Edgar Bueno, o PSL de Nei Haveroth e Rômulo Quintino; o PV de Martendal (ex-PSDB); e, o Solidariedade de Marcos Rios. Assim, somados aos nanicos, todos “agregados” ao custo da distribuição de secretarias e outros acertos (quem acredita no discurso de que não houve troca de cargos, que acompanhe as nomeações), o novo grupo de Paranhos é uma incompreensível “colcha de retalhos”.

Paranhos entrou na vida pública em 1996, fazendo 1.608 votos para vereador. Em 2.000, foi vice-prefeito de Edgar Bueno. Disputou a prefeitura em 2004, ficando em 4º lugar com inexpressivos 6.679 votos, equivalentes a 4,84% dos válidos. Em 2006 disputou uma cadeira na ALEP e com 25.649 votos não obteve o suficiente para se eleger. Ciente de que não tinha cacife para garantir uma vaga no PMDB devido ao coeficiente eleitoral, trocou de partido e tentou novamente em 2010 pelo PSC, quando com 27.263 votos foi eleito deputado estadual. Se reelegeu em 2014, com 69.697 votos.

Um novo grupo político legítimo, surgiu

No outro lado, a grande surpresa do pleito de 2016 foi o policial federal bom de voto e de parcerias, Marcio Pacheco, que com uma campanha modesta e alianças com partidos desvinculados das velhas raposas cascavelenses, impressionou na capacidade de crescimento político. Em 2012 Pacheco concorreu pela primeira vez ao cargo de vereador e alcançou os 1.412 votos, conquistando a 15ª das 21 cadeiras do Legislativo. Com menos de dois anos do ingresso na Câmara de Vereadores e ocupando a posição de presidente da Casa, foi eleito deputado estadual, com 24.855 votos. E, nas eleições recentemente disputadas, ficou em segundo lugar, com 56.260 votos para prefeito. Uma trajetória política de menos de quatro anos, com resultados surpreendentes.

Embora haja os que digam que Pacheco foi derrotado neste pleito de 2016, o que se pode verificar ao analisar os resultados no período de tempo citado, é que o policial federal é o maior de todos os vitoriosos, pois está à frente de um novo grupo político, livre dos velhos praticantes da má política, e apoiado e associado a partidos que se engajaram em sua campanha sem pré-acertos por cargos ou vantagens e, desta forma permanecerão ao lado do jovem político do Partido Pátria Livre. Com PRB, PHS, PMN, PMB, PEN, PCdoB e PROS, Pacheco é hoje o grande candidato a ser o próximo prefeito de Cascavel, considerando que não há mais a possibilidade de reeleição a partir deste ano.

A intransigência de Pacheco em acertar negociações em troca de apoio nestas eleições rendeu, inclusive, complicadas situações que resultaram na perda de coligações, e até mesmo na revolta de “donos” de partidos de aluguel que, descontentes com a decisão da maioria dos filiados em se juntar na coligação do policial federal, tentaram por todos os meios modificar o que foi decidido pelos demais filiados. Mesmo consciente de tais riscos, Pacheco não deu um passo na direção dos perigosos acertos e trocas de cargos, que no meio político equivale a “vender a alma ao diabo”.

Preparando o terreno para 2020

Pacheco e qualquer outro que almeje ser o próximo prefeito, têm que ter em mente que o acerto para a eleição de Paranhos envolve um grande acordão, muito além de não mexer nas suspeitíssimas licitações, aditivações de contratos, adjudicações controversas, contratações estranhas, participação de empresas sem condições técnicas ou financeiras de realizar obras, dentre muitos outros problemas que serão deixados por Edgar Bueno para Leonaldo Paranhos administrar. O maior custo de todo o apoio feito por baixo dos panos, reside na volta da família Bueno ao poder, nas eleições de 2020, através do deputado estadual André Bueno, o maior de todos os projetos políticos de Edgar. Se ilude Jorge Lange e o PSD se imaginam que o vice de Paranhos virá a ser o natural candidato apoiado pelo prefeito cristão.

Fotos: redes sociais

 

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